O preço do Leapmotor B05 tem tudo para acender um alerta entre as fabricantes europeias - e não apenas por isso. Depois de guiá-lo, cai por terra a noção de que os chineses entram na briga só pelo valor.
Segundo Pedro Lazarino, diretor-geral da Stellantis em Portugal, a Leapmotor vem ganhando peso dentro da estratégia da Stellantis na Europa. Por isso, não surpreende que a gama no “Velho Continente” continue avançando e agora passe a contar com mais uma novidade: o Leapmotor B05.
Enquadrado no segmento C (hatches/familiares compactos) como opção para quem não quer um SUV, o B05 mira rivais como CUPRA Born, Renault Megane E-Tech e o обновado Volkswagen ID.3 Neo. Ainda assim, é o valor cobrado que rouba a cena.
Com preços a partir de 26 285 euros, o novo compacto da Leapmotor custa menos do que praticamente todos os concorrentes - em alguns casos, com diferenças que passam de 10 mil euros - e ainda sai mais em conta do que vários elétricos de um segmento abaixo. Na prática, ele encosta no preço de modelos a combustão dentro da mesma categoria.
Com uma estratégia de produto já conhecida nas marcas chinesas - ficha técnica forte, bastante equipamento e uma relação preço/autonomia especialmente atrativa - será que o B05 pode virar um “democratizador” inesperado da mobilidade elétrica?
Leapmotor B05: um chinês com toque europeu
Com 4,48 m de comprimento e 2,73 m de entre-eixos, o B05 fica um pouco acima da média de um compacto familiar europeu. No visual, ele entrega uma combinação bem dosada de sobriedade com um ar atual.
Sem apelar a soluções futuristas em excesso ou a escolhas de estilo polêmicas, ainda assim há detalhes que o diferenciam, como as portas sem moldura - algo normalmente visto em carros mais caros e de nicho.
Com rodas de 19’’ e teto panorâmico de série, o B05 acaba tendo um desenho mais distinto (e menos “esquisito”) do que outras propostas chinesas, embora não seja exatamente o tipo de carro que faz todo mundo virar o pescoço quando passa.
No fim, ele lembra um sorvete de baunilha: dificilmente vira o favorito de alguém, mas quase ninguém rejeita pelo visual ou o acusa de ser exótico demais.
Espaço para (quase) tudo
Por dentro, o B05 segue a cartilha que hoje domina entre várias marcas chinesas: poucos botões físicos e grande dependência da tela central de 14,6’’ para comandar a maioria das funções.
Essa opção cobra seu preço em ergonomia e só não incomoda mais porque a marca manteve atalhos permanentes na tela para os controles essenciais.
Como compacto familiar que pretende ser, o B05 tem bons argumentos. A base com bateria integrada à estrutura ajudou a baixar o assoalho e a melhorar o aproveitamento interno, resultando em um habitáculo espaçoso na frente e também atrás. Ainda assim, o encosto do banco traseiro inclinado a 27º faz o passageiro ficar com a cabeça mais próxima do vidro do pilar C do que da janela lateral.
Por outro lado, se o espaço traseiro coloca o B05 perto das referências do segmento, o porta-malas com apenas 345 litros decepciona. Afinal, há modelos do segmento B (um degrau abaixo) cujo bagageiro “envergonha” o do B05 - caso, por exemplo, dos 441 litros do novo Volkswagen ID. Polo.
Na qualidade percebida, o B05 também não fica distante do padrão das marcas generalistas. Há materiais mais macios nas partes superiores do interior e, nas áreas menos nobres (mesmo com plásticos mais rígidos), o toque não é desagradável. Outro ponto positivo é a boa insonorização e a montagem, algo reforçado pela pouca presença de ruídos a bordo.
Pensado na China, desenvolvido na Europa
Seja pelo anúncio de que o chassi passou por acerto dos engenheiros da Stellantis em Balocco (pista de testes do grupo na Itália), pela distribuição de peso 50/50, ou por estar entre os poucos do segmento com tração traseira, comecei este primeiro contato dinâmico com o Leapmotor B05 em estradas alemãs com certa expectativa.
O trajeto, formado majoritariamente por estradas de montanha, já indicava a confiança da marca no seu “caçula”. E, no fim, essa confiança não pareceu exagerada.
Ao volante, o motor elétrico traseiro entrega 160 kW (218 cv) e 240 Nm, com desempenho bastante bom para a categoria (6,6s de 0 a 100 km/h). Mas o que mais chama atenção é como esses números chegam ao chão e como são administrados.
Nos primeiros quilômetros, a surpresa foi positiva: o torque entra de forma progressiva e a resposta do acelerador é linear - um atributo que nem todo elétrico consegue oferecer, já que muitos parecem agir como um simples interruptor.
A tração traseira também ajuda no conjunto. A direção fica mais “limpa”, porque o eixo dianteiro não precisa acumular a tarefa de tracionar. Assim como a aceleração, a direção permite ajustes, tem peso adequado e boa precisão. O que ainda falta é um nível maior de comunicação.
O resultado é uma sensação de equilíbrio que às vezes não aparece em elétricos com tração dianteira, e que também coloca o B05 um degrau acima de outras propostas chinesas. Isso se repete no acerto entre conforto e controle de carroceria: ele filtra bem as irregularidades do asfalto sem transformar tudo em movimentos excessivos.
Consumo melhor do que o anunciado
Nem sempre um primeiro contato oferece as condições ideais para medir consumo, mas o número apontado no computador de bordo foi animador: 14,8 kWh/100 km, cerca de 1 kWh/100 km abaixo do valor oficial.
É um resultado bem interessante, obtido com um passageiro a bordo e sem “sofrer” para economizar. Aliás, o modo Sport foi o mais utilizado (além dele, há Eco e Normal).
Muito carro por pouco dinheiro?
Com duas opções de bateria - uma de 56,2 kWh e 401 km de autonomia e outra de 67,1 kWh que promete até 482 km - o Leapmotor B05 aceita recargas em corrente alternada (AC) de até 11 kW (30-80% em três horas) e em corrente contínua (DC) de até 168 kW (30-80% em 17 minutos), ficando no mesmo nível dos rivais europeus também nesse quesito.
Onde ele realmente “abre vantagem” é no preço. Com chegada às concessionárias prevista para julho, o elétrico Leapmotor B05 tem preços a começar nos 26 285 euros (24 445 euros para clientes particulares com campanha de lançamento). Fique com todos os preços:
Um “problema” para a Stellantis?
Esses valores ficam ainda mais impressionantes quando colocados em perspectiva diante dos concorrentes, com diferenças que podem passar de 10 mil euros - salvo uma ou outra alternativa chinesa. E esse B05 ainda nem começou a ser produzido na Espanha, justamente para escapar das tarifas europeias.
Pelo lado da concorrência interna da Stellantis, a versão mais barata do Citroën ë-C4, com bateria de 50 kWh e apenas 136 cv, parte de 39 215 euros. Já Peugeot E-308 e Opel Astra - ambos com bateria de 58 kWh e 156 cv - têm preços iniciais de 41 425 euros e 41 090 euros, respectivamente.
Mais curioso ainda é o confronto com as versões a combustão desses mesmos modelos. O Citroën C4 mais acessível, com motor 1,2 l e 110 cv, custa 29 765 euros; o Peugeot 308 de entrada já entrega 145 cv, mas começa em 33 945 euros; e o Opel Astra com a mesma mecânica é o mais caro do trio, a partir de 34 590 euros.
Fora do grupo que representa a Leapmotor na Europa, o cenário continua semelhante. Com potência próxima, 220 cv, e bateria de 63 kWh, o Renault Megane E-Tech sai desde 38 837 euros.
No fim, o rival mais direto do Leapmotor B05 acaba sendo o conterrâneo MG4 Urban, que de britânico tem apenas o nome. Ele custa a partir de 25 990 euros, mas traz bateria de só 43 kWh e potência de 110 kW (150 cv).
Para chegar perto dos valores do B05, não dá para olhar apenas para o segmento em que ele se posiciona, e sim para o imediatamente inferior, onde aparecem opções como Renault 5, FIAT Grande Panda ou o novo Volkswagen ID. Polo.
Essa combinação - preço baixo, autonomia, desempenho e equipamentos - faz do Leapmotor B05 uma das ofertas de melhor custo-benefício do mercado. Ele não bate os melhores da categoria em refinamento ou dinâmica, mas tem força para se consolidar como uma das opções com melhor relação preço/equipamentos entre os compactos elétricos atualmente à venda, sejam do segmento C ou B.
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