Por que esse Citroen Ami só tem um assento?
Olho de águia, hein. Isso acontece porque esta é a versão Ami Cargo - basicamente a configuração de entregas do quadriciclo elétrico que a Citroen lançou há três anos. Para ganhar um compartimento de carga de 260 litros pronto para receber caixas (ou sabe-se lá o quê), o banco do passageiro sai de cena. Em resumo, é isso.
Então é… uma van minúscula?
Na prática, sim. E ela é apenas uma das derivadas do Ami que apareceram recentemente (bem, duas): a outra é o Ami Buggy, sem portas - tão procurado que o lote inicial de 50 unidades precisou ser multiplicado por 20 para dar conta da procura. Pois é.
O próprio Ami, aliás, agora existe em vários níveis de acabamento, com pacotes opcionais para personalização extra. Para completar, a Citroen ainda fez até uma versão de viatura policial para uma ilha grega.
Relembra as especificações?
Um único motor elétrico traciona as rodas dianteiras e entrega um total “impressionante” de… 8 bhp. Oito. Nem existe número de 0–100 km/h, porque o Ami nunca vai chegar lá; em vez disso, ele limita a 45 km/h e sai do zero até essa velocidade em cerca de 10 segundos.
A energia vem de uma bateria de 5,5 kWh, que rende 76 km de autonomia (menos, claro, se o Cargo estiver carregado até o talo). A carga completa leva três horas, tanto em tomada doméstica comum quanto numa wallbox mais sofisticada. O Ami é fabricado exclusivamente com plugue europeu de dois pinos, então a Citroen UK inclui de série um adaptador Tipo 2. Convenientemente, o nosso carro de teste também vinha com um acessório de três pinos, mas você vai precisar comprar o seu.
O volume total para transporte chega a 400 litros e o Ami Cargo pesa 478 kg. Só que, como o Peso Bruto Total no limite é de apenas 700 kg, sobra uma mísera capacidade de carga útil de 140 kg depois que você considera o peso do motorista.
Não parece muito “pau pra toda obra”...
Foi exatamente essa a nossa sensação. E como, mecanicamente, ele é idêntico ao Ami padrão de dois lugares, continua tão lento e barulhento quanto antes. Ou seja: não é o tipo de veículo que você escolheria para transportar vasos antigos valiosíssimos… ou órgãos.
Talvez ainda bem. Você vai querer esses intestinos “fresquinhos” para si depois de passar mais de cinco minutos dentro do Ami, de tão brutal que é a pancada das imperfeições do asfalto direto no estômago. Fuja de paralelepípedos a qualquer custo.
E vale investir num bom fisioterapeuta: se você mede perto de 1,83 m, vai precisar ir meio curvado no banco para enxergar a frente quando pegar uma subida (e para ver semáforos). A visibilidade traseira também deixa a desejar, porque os retrovisores são minúsculos.
Imagino que também não seja lá essas coisas de dirigir…
Dá para chamar de novidade - vamos colocar assim. E, em certa medida, ainda bem que ele não anda mais do que isso, porque, se andasse, você viveria no limite do que o chassi realmente aguenta. Talvez você tenha visto um vídeo viral no começo do ano em que um Ami foi levado além do que devia nas ruas de Mônaco… e ele não permaneceu de pé. Existe um motivo para a direção ter sido “suavizada” até o fim. Entre devagar e saia devagar das curvas, por favor.
Eita. Então, para quem isso serve?
A Citroen enxerga o modelo como uma ferramenta de entrega de última milha - e, de forma realista, só em cidades onde ele consiga ao menos se aproximar do limite de velocidade. De forma bem reveladora, o material de divulgação da marca (veja abaixo) mostra o Ami Cargo trabalhando dentro de um armazém, onde um carrinho pequeno e de emissões zero até poderia fazer sentido.
Ele combina com essa missão?
Na teoria, sim; na prática, a execução não é boa. As prateleiras plásticas passam uma sensação de fragilidade, e não há nenhum material macio em lugar algum para reduzir vibrações. O painel superior abre na direção do assento do motorista, o que significa que, para acessar os itens com facilidade, a solução é tirar a tampa por completo. Há também um porta-trecos útil à sua direita, ali por volta das “cinco horas”, mas ele não é tão grande - e você vai precisar de uma coluna bem flexível para alcançá-lo.
Aí entra a porta de carga: ela abre para o lado oposto ao da porta do motorista, mas o problema é que não existe nada para mantê-la aberta. Então, quando você para na rua e precisa fazer mais de uma viagem para descarregar suas mercadorias, ela fica insistindo em fechar sozinha. Isso cansa rapidamente.
Parece uma falha óbvia. E o custo-benefício?
É difícil entender por que um comprador particular escolheria o Cargo, principalmente porque ele custa trezentas libras a mais do que as £7,695 cobradas no Ami básico - no qual você ainda poderia levar um acompanhante.
Então, partindo do princípio de que só empresas vão entrar na fila, ele vale o investimento? Bem: sai por £6,662.50 depois de descontar o VAT, e também não há VED para pagar. Até aqui, tudo certo.
Também vale lembrar que a autonomia (por mais pequena que seja) indica uma eficiência impressionante para esse tamanho de bateria. No papel, são 8.5 mi/kWh - o dobro do que você esperaria de um bom carro elétrico - e, com os custos de recarga à mercê da disparada dos preços de energia neste momento, a economia vira um ponto forte.
Ainda assim, a pergunta que você precisa se fazer é: ‘Isso vai ser melhor do que uma mobilete… ou cinco?’ Claro que a capacidade de carga não é comparável, mas uma scooter atravessa o trânsito com facilidade. O Ami - apesar de ter menos de 1,4 metros de largura e 2,5 metros de comprimento - não consegue. E, para um entregador, isso é um limite inegociável.
Ai. E mesmo assim vocês adoraram o Ami padrão…
Adorámos. Quando a TG o guiou pela primeira vez, em 2020, demos 9/10, muito por causa do seu espírito valente de aventura e da sua individualidade. Chegámos até a chamá-lo de ‘fofinha’. Só que, recentemente, a Fiat anunciou a sua própria versão, chamada Topolino, e perto dela o Ami já não parece tão adorável.
Não: o Cargo é um Ami com a diversão removida. Só trabalho, nada de brincadeira - e, pior, ele também não faz tão bem o serviço. Uma pena.
- Fotografia: Joe Holding
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