A Comissão Europeia e os principais executivos da indústria automobilística europeia estão reunidos em Bruxelas para debater o encerramento dos motores a combustão em 2035. De um lado, o setor pede margem de manobra; do outro, a Comissão Europeia sustenta que, no curto prazo, o caminho da Europa deve ser 100% elétrico.
ATUALIZAÇÃO: A reunião já terminou; neste artigo, você confere o que saiu do encontro entre a Comissão e a indústria automobilística.
O “diálogo estratégico” em Bruxelas sobre 2035
Este é o terceiro e último encontro do chamado “diálogo estratégico” entre a Comissão Europeia e a indústria automobilística. Ao longo de três horas, a presidente Ursula von der Leyen e executivos do alto escalão discutem se a meta de 2035 - que prevê apenas vendas de automóveis de zero emissões - ainda é viável.
Em agosto, as associações ACEA (montadoras) e CLEPA (fornecedores) enviaram uma carta conjunta, assinada por Ola Källenius (Mercedes-Benz) e Matthias Zink (Schaeffler), alertando que este pode ser o “último momento para salvar uma das indústrias mais bem-sucedidas e competitivas da Europa”.
Indústria automobilística pede realismo
O setor não contesta o destino do automóvel: emissões zero. O argumento, porém, é que “o caminho tem de ser recalibrado”, com “mais pragmatismo e menos ideologia”. Na prática, isso inclui: ampliar o espaço regulatório para híbridos plug-in, elétricos com extensor de autonomia e combustíveis alternativos; reavaliar as metas de emissões para 2030 e 2035; priorizar políticas de incentivo em vez de punições; e, por fim, permitir a fabricação de carros mais acessíveis por meio de exigências de segurança simplificadas.
Cadeia de suprimentos de carros elétricos e a disputa com a China
Quando o assunto são componentes e a cadeia de abastecimento dos carros elétricos, praticamente todas as marcas cobram investimento europeu em baterias, semicondutores e matérias-primas. O objetivo é conter a vantagem da China, que consegue produzir EVs com custos cerca de 25% mais baixos.
Nem todos concordam com a estratégia
Dentro do próprio setor, há divergências. Michael Lohscheller, CEO da Polestar, diz que empurrar o prazo para frente aumenta o risco para empregos e pune quem já colocou dinheiro na eletrificação. “A vida não é linear, mas o futuro da mobilidade é sem emissões”, afirmou em Munique.
Já Ola Källenius, na condição de presidente da ACEA, admitiu que o rumo é inequívoco: emissões zero. Ainda assim, defendeu “abrir o espaço de soluções” e tirar lições do que funcionou - ou não - até aqui. Christophe Périllat, CEO da Valeo, sugeriu manter 2035, mas com flexibilidade tecnológica, aceitando PHEVs capazes de rodar mais quilômetros em modo elétrico e EVs com extensor de autonomia.
Sigrid de Vries, diretora-geral da ACEA, sintetizou a visão mais comum entre as empresas: “Os carros estão aqui, a tecnologia existe, mas não é suficiente para cumprir os prazos. É altura de passar das declarações políticas às soluções concretas.”
Friedrich Merz, chanceler alemão, segue a mesma linha: “Estamos comprometidos com a mobilidade elétrica, mas precisamos de mais flexibilidade nas regras. Compromissos cegos com tecnologias específicas são o caminho errado.”
Empregos, competitividade e soberania industrial
O desfecho do encontro de hoje, em Bruxelas, pode influenciar não apenas o futuro do motor a combustão, mas também o quanto a Europa consegue reagir à ofensiva dos EUA e da China. Estão em jogo mais de 13 milhões de empregos e um dos pilares centrais da economia europeia. Para a Comissão Europeia, mais do que um cronograma, o debate envolve a própria soberania industrial da Europa.
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