Há duas décadas, a Porsche revelava um dos projetos mais arrojados da sua trajetória: o Porsche Cayenne. A história por trás desse modelo é bem mais intrincada do que o sucesso imediato faz parecer. Este «Especial de Natal» da Razão Automóvel é dedicado a essa caminhada.
É um enredo feito de coragem e engenharia de última geração. “Foi uma decisão arriscada, desenvolver um SUV no final dos anos 90. Mas esta decisão permitiu-nos superar toda a nossa concorrência em pouco tempo”, relembra Hans-Jürgen Wöhler, um dos antigos responsáveis pelo programa de desenvolvimento do Cayenne.
Por dentro, esse programa tinha um codinome: projeto Colorado. Um projeto que a Razão Automóvel revisita agora em vídeo, reunindo duas gerações do Porsche Cayenne:
O terceiro pilar da estratégia Porsche
Hoje parece distante, mas na década de 1990 a Porsche vivia uma das viradas mais profundas da sua história.
Foi uma reinvenção completa, impulsionada tanto pela escalada dos custos de produção quanto pela forte valorização do dólar - um cenário que colocava em risco um dos mercados mais importantes da marca: os Estados Unidos da América.
Com o êxito do Porsche 911 geração 996 - o primeiro com arrefecimento líquido - e do então inédito Porsche Boxster, a marca alemã ainda precisava consolidar um terceiro pilar estratégico: um veículo voltado à família, com capacidade fora de estrada e comportamento dinâmico à altura de um esportivo.
Havia apenas um pequeno problema: ainda ninguém tinha conseguido alcançar estes objetivos num só modelo.
Foi exatamente esse desafio que a engenharia da Porsche abraçou: ou surgia um carro assim, ou então não mereceria carregar o emblema. Tinha de ser “um todo o terreno que Ferdinand Porsche aprovaria”, afirmou Hans-Jürgen Wöhler em 2020, durante uma entrevista.
Nasceu um Porsche
Foram mais de quatro anos de desenvolvimento - relembramos alguns desses momentos no vídeo em destaque - até o lançamento de um SUV que mudou o mercado e que, até hoje, dita o rumo do segmento.
A reputação da marca estava em jogo, e os engenheiros da Porsche tinham plena consciência disso. Por essa razão, não houve alternativa a não ser começar o Cayenne do zero, como se fosse uma folha em branco.
Aquilo que queriam alcançar ainda não tinha sido conseguido e exigia abordagens totalmente novas.
A uma carroceria monobloco de alta rigidez - base do comportamento dinâmico no asfalto - a Porsche acrescentou ao Cayenne um conjunto de transmissão com tração integral, reduzidas e bloqueio de diferenciais. Já nas suspensões, os técnicos optaram por sistemas adaptativos, com ajuste de altura e de rigidez.
No capítulo das motorizações, a Porsche recorreu a conjuntos cuja potência podia chegar a 450 cv - um número recorde e que ainda hoje impressiona.
Vinte anos depois, quem concentra os holofotes são os 640 cv da versão Turbo GT. É essa força que permite ao Cayenne atingir 300 km/h de velocidade máxima.
Porsche Cayenne. 20 anos a superar limites
Hoje, o Cayenne é praticamente um consenso entre os fãs da marca. O desempenho comercial - que permitiu à Porsche direcionar mais recursos para o desenvolvimento de novas tecnologias - e as conquistas técnicas deixam pouca margem para dúvidas.
Mas nem sempre foi assim. Em 2002, o Cayenne não foi recebido de braços abertos por todos. Segundo a própria marca, existe sempre alguma resistência diante do que é novo. Talvez por isso, ao longo de 20 anos, a Porsche tenha feito questão de colocar o Cayenne sob provas exigentes.
Mais um milhão de unidades depois, o Cayenne já fez um pouco de tudo.
Ele venceu um dos ralis mais duros do mundo: o Transsiberian. Foram mais de 7000 km, entre selvas e planícies, com apenas modificações leves - o suficiente para demonstrar a solidez do conceito no fora de estrada.
Também rebocou um avião de 285 toneladas sem aparente esforço e voltou à Alemanha pelos próprios meios, mantendo transmissão, suspensões e pneus originais. Um feito que levou a Porsche a registrar o nome do Cayenne no livro de recordes do Guinness.
Mais recentemente, em uma unidade igual à que conduzimos neste Especial Razão Automóvel, um Porsche Cayenne Turbo GT, foi estabelecido o recorde para veículos com essas características no Nürburgring Nordschleife.
Ainda assim, talvez mais importante do que tudo isso, o Cayenne levou famílias para dentro e para fora do asfalto, entregando a quem está ao volante exatamente o que se espera da marca: uma experiência de condução Porsche.
Uma fórmula que segue evoluindo, geração após geração. Um modelo que, por tudo o que conquistou, já garantiu um lugar de destaque na história da marca.
Parabéns, Cayenne!
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