Isso é um Ford Shelby GT500.
Você acertou: é sim. Mas também não é bem assim. A base é o super Mustang de 750 hp da Ford, só que ele passou pelas mãos grandes e calejadas da Hennessey Performance e saiu com 1.000 hp. Portanto, tecnicamente, estamos a falar do 2022 Hennessey Venom 1000.
E que nome bom - e maldoso. A “área de nomes” da Hennessey deve ser uma das mais ocupadas do planeta, porque o Venom 1000 chega para se juntar ao Exorcist, ao Velociraptor e ao Mammoth na gama.
Então qual é a visão do Texas sobre o GT500?
A de sempre: John Hennessey olhou e concluiu que faltava potência - então tratou de acrescentar mais. Dá até para imaginar o John a encarar um foguete Saturn V e a achar que também precisava de mais força.
Com alguns ajustes relativamente “leves”, a Hennessey tirou mais 250 hp e levou o V8 5,2 litros “Predator” do GT500 a números de quatro dígitos: 1.000 hp a 7.000 rpm e 850 lb ft de binário a 4.800 rpm (cerca de 1.152 N·m). Só que isso vale apenas com combustível E85. Se o depósito estiver com gasolina comum 93 octanas de bomba, a potência fica em 900 hp - o que, convenhamos, ainda está bem longe de ser pouco.
Espera: o que é mesmo o GT500?
Ele foi o Muscle Car do Ano de 2019 para a Top Gear e talvez represente um dos últimos muscle cars “puros” do Oval Azul. Em termos simples, é o muscle mais extremo do topo da família Mustang, feito para peitar os europeus mais casca-grossa por uma fração do preço (US$ 72,900).
A receita mistura tração traseira à moda antiga com tecnologia de hoje: caixa de dupla embraiagem (DSG) de sete marchas, suspensão ativa MagneRide e uma boa dose de componentes voltados para performance - incluindo know-how em carbono.
De série, o GT500 faz de 0 a 96 km/h (0 a 60 milhas por hora) em 3,3 s, completa o quarto de milha (402 m) em 10,61 s a 214 km/h (133 milhas por hora) e solta um som capaz de eriçar os pelos da nuca. É chamativo, audacioso e não pede desculpas por isso: um ataque direto aos sentidos.
Então o que, exatamente, a Hennessey fez nele?
Menos do que muita gente imaginaria - ou do que talvez quisesse pelo preço de US$ 24,950. Em contrapartida, o pacote vem com garantia de três anos/36.000 milhas (cerca de 58.000 km), algo incomum quando se fala em potência de quatro dígitos e que ajuda a manter tudo do lado “seguro” caso alguma coisa faça ka-boom.
Grande parte do que define o GT500 continua ali. O supercharger de série, um Roots de 2,65 litros, segue montado sobre o V8 5,2 litros original. E vale lembrar: quando se exige tudo dele, esse compressor chega a consumir 90 hp só para funcionar. É de engolir seco.
Ainda assim, há novidades importantes: melhoria na admissão de ar de alto fluxo para encher melhor os “pulmões” do Venom; mais pressão, porém com uma polia menor no acionamento do supercharger; conjunto de cubo do supercharger revisto; e uma correia mais resistente, para não “estalar” quando se afunda o pé.
Também entram injetores de maior vazão, novas linhas e fuel rails, além de um “tijolo” de arrefecimento do intercooler atualizado. Por fim, há um acerto na ECU para libertar mais potência e permitir flex fuel. E respira.
E como ele é ao volante?
Parrudo. “Carne” em dobro - como um “duplo-duplo” no tal estilo Animal, para usar uma expressão americana. Sim, o gráfico do dinamómetro mostra números grandes e assustadores (e a ideia de 1.000 hp assusta mesmo), mas o Venom 1000 não se comporta como algo indomável nem parece caótico.
Na verdade, é surpreendentemente fácil de conduzir - muito por conta do quão bem acertado o carro já é desde a fábrica, mérito do trabalho da Ford.
O conforto também impressiona: coloque o modo de condução lá em baixo, no “Conforto”, e dá para rodar tranquilamente. Graças à eletrónica e à gestão do conjunto, o Venom 1000 anda como um GT500 - e o GT500 já se sente como um muscle afinado para pista, firme e preciso. Ele não dá trancos por causa de alimentação nem passa aquela sensação de “potência demais” típica de muitos projetos de preparadoras.
A caixa de dupla embraiagem de sete marchas, combinada com cinco modos de condução, ajuda a domar o conjunto e a entregar potência e binário de forma consistente.
Mas ele não tem um lado nervoso?
Claro que tem. Só porque dá para guiar como se fosse um carro popular, não significa que seja essa a ideia - ninguém em sã consciência entra num muscle car para conduzir como se tivesse um instrutor ao lado.
Então o ritual é o esperado: vai-se subindo os modos até “Pista”, desliga-se o controlo de tração e vê-se que tipo de nuvem (patrocinada pela Michelin) dá para criar. E, como seria de esperar com 1.000 hp à disposição, o resultado é uma dose generosa de roda a patinar e fumo de pneu. Como deve ser.
Como em tudo o que a Hennessey faz, é preciso coragem para extrair o melhor. E se o GT500 já não tem problema em patinar em quarta marcha, o Venom 1000 não foge à regra. A boa notícia é que isso vira uma brincadeira, porque o chassi aguenta e os travões Brembo parrudos também.
Também ajuda ter espaço: o supercharger gosta de “embalar” antes de entregar tudo. Mas a experiência compensa. Ao esmagar o acelerador longo do GT500, surge uma sinfonia de raiva e drama: o V8 vai ganhando fôlego e o compressor entra no ritmo.
Aí os ouvidos agradecem e os pelos começam a formigar, porque o assobio do compressor entra em duelo com o thwap metálico e sujo do escape - que, de forma incrível, continua a ser o original, e é tudo o que precisa.
Quanto mais se mantém o pé, mais o carro despeja marchas, e mais depressa os números grandes com “km/h” do lado piscam no painel. Parece intimidador, mas o tempo todo ele permanece composto, controlável e divertido.
Nas curvas, a história repete-se: os pneus dianteiros de secção 305 agarram com vontade, e a direção deixa claro onde o carro está - o que dá confiança para agir como um brutamontes e, no acelerador, sobrecarregar os 315 traseiros ajustando a traseira. É muscle car à moda antiga, com uma vibe bem moderna.
Há mais alguma coisa a ter em conta?
O pacote Venom 1000 pode ser aplicado em qualquer GT500, mas tende a fazer ainda mais sentido em carros com o opcional de US$ 18,500 chamado “Pacote de Carbono”. Esse pacote transforma o GT500 num produto mais focado e ainda mais singular: elimina os bancos traseiros, adiciona um aerofólio traseiro maior e rodas de carbono para reduzir massa, além de trocar os Michelin Pilot Sport 4S por pneus Cup 2 super-aderentes - que lidariam ainda melhor com a potência extra.
De qualquer forma, se a sua ideia é ter um Mustang zangado e com números de potência capazes de encerrar qualquer conversa de bar, então US$ 24,950 é dinheiro bem aplicado.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário