Este teste foi publicado pela primeira vez na Edição 131 da revista Top Gear (2004)
Existe um tipo especial de raiva - uma fonte pequena e venenosa de irritação - que eu guardo para quem compra um conversível no Reino Unido e, quando finalmente aparece um dia de sol, anda com a capota fechada. Isso me dá vontade de gritar e fazer gestos obscenos, tamanha é a impotência diante de um potencial desperdiçado. Afinal, por aqui os raios de sol são raros demais para serem jogados fora.
Dilema de conversível no Reino Unido
E aí eu caio numa armadilha criada por mim mesmo quando descubro as chaves de um BMW 645Ci Conversível, com uma viagem longa pela frente e um céu indeciso, pronto para mudar de ideia a qualquer momento. O que fazer? Encaro o tempo e arrisco o último resquício de moral se o céu resolver atirar uma tempestade sobre a A1? Ou viro exatamente a pessoa que eu detesto e rodo por aí com a capota no lugar?
A saída é o meio-termo: começo a viagem com a capota fechada e termino com uma postura mais “sem capota”. No fim das contas, é meu dever testar todos os lados do desempenho do carro. Então, primeiro eu avalio o 645Ci com o teto no lugar: uma lona cinza cobrindo uma boa área, num desenho bem longo e bem baixo. Não é tão agressivo quanto alguns BMW recentes, mas também está longe daquele Mercedes CLK Cabrio todo arrumadinho. Eu gostei.
Design, cabine e espaço
Ao dar a partida, vem um “baque” gostoso e encorpado dos dois escapamentos - mesmo sendo o mesmo V8 Valvetronic da Série 7, aqui ele parece bem mais parrudo graças a um escape menos restritivo. Por dentro, há aquela arquitetura nova da BMW, cheia de cortes e vincos, como na Série 5. Só que, no ambiente mais estiloso da cabine da Série 6, isso não briga tanto com o resto.
Na frente, o conforto é excelente; atrás, o espaço já não é tão amigável.
Motor V8, câmbio e comportamento
Mas isso, na verdade, é detalhe. De cara, este carro parece o mais esperto e reativo entre os conversíveis grandes - mesmo com o câmbio automático do carro testado aqui (opcional de £1,350). A direção não tem o ótimo sistema ativo da BMW, mas, ainda assim, funciona muito bem sem ele. Do mesmo jeito, a assistência dos freios e dos comandos é leve, porém não chega a ser anestesiada.
O motor é um espetáculo: soa como uma NASCAR domada e nunca falta empurrão em nenhuma das seis relações bem escalonadas do câmbio.
Capota, mecanismos e um futuro eletrónico preocupante
Rodar com a capota aberta é quase uma desculpa para ouvir o V8 ainda melhor. O mecanismo não é dos mais rápidos (não quando comparado ao teto de um Z4), mas ele se recolhe de forma bem organizada, e o defletor de vento em vidro sobe e desce atrás dos bancos traseiros com um movimento suave, quase líquido.
Quando você baixa a capota, entra em ação amperagem suficiente para deixar Dorset mais escura. Uma Série 6 tem motores elétricos aos montes - o bastante para ganhar um papel pequeno no próximo filme do Terminator: são 112 deles. Eles comandam tudo, da tampa do porta-malas aos lavadores dos faróis, dos vidros aos faróis ativos (opcionais).
O efeito colateral é que o BMW moderno (e o mesmo vale para Mercedes/Audi) começa a parecer uma bomba-relógio para quem vier depois. Dá para imaginar tentar consertar um sistema integrado em barramento CAN via iDrive? Uma desvalorização “de computador” não é nada bem-vinda. Daqui a 10 anos, quanto vai valer um Série 6 Conversível?
Eu gosto deste carro, porém. Ele tem visual diferente, sensação diferente e anda demais. E ainda aguenta uma tocada forte. Diante da concorrência atual, é difícil bater o 645Ci naquilo que ele se propõe a ser.
Veredicto
Veredicto: Estilo com soco de verdade. Você vai querer baixar a capota só para ouvir o ronco desse motor maravilhoso.
V8 de 4.4 litros
333bhp, RWD
0-60mph em 6.2secs, velocidade máxima 155mph
£55,900
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