A primeira aposta elétrica da Ferrari virou alvo de piadas sem fim na internet e acabou puxando uma queda histórica no valor de mercado. Só que, enquanto as redes entram em ebulição, os compradores já fizeram fila com o talão de cheques.
Na segunda-feira, 25 de maio, a Ferrari finalmente apresentou a Luce, seu primeiro carro 100% elétrico. O lançamento marca um momento simbólico para a marca, que passou cinco anos desenvolvendo o modelo em parceria com o renomado designer Jony Ive. Ainda assim, a recepção inicial ficou bem longe do entusiasmo esperado.
Nas redes sociais, choveram comparações - de uma Honda Accord a uma "torradeira de luxo". Para piorar, Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari, disse à imprensa italiana que seria preciso "pelo menos retirar o cavalo empinado" do carro. O recado público foi duro e, no mesmo movimento, a empresa viu seu valor de mercado cair 8% em poucos dias, apagando vários bilhões em capitalização.
Para um veículo anunciado como a virada elétrica de uma das marcas automotivas mais prestigiosas do planeta, o começo foi, no mínimo, turbulento.
Barclays entra em campo
Nem todo mundo, porém, comprou essa leitura pessimista. O banco britânico Barclays saiu em defesa da Ferrari e avaliou que a reação do mercado foi "exagerada". Na visão da instituição, a Luce deve representar apenas uma fatia pequena do volume total da marca, que planeja nada menos que 20 novos modelos até 2030 - um pano de fundo que reduz bastante o risco financeiro efetivo.
O grupo também sustenta que o visual da Luce não é um tropeço, e sim uma aposta estratégica intencional. O banco mantém a recomendação de "sobreponderar" para a ação, com preço-alvo de 355 euros. Para investidores, o recado é claro: o barulho midiático não altera os fundamentos da Ferrari.
Esse roteiro, aliás, remete a um caso conhecido. Em 2019, a Ford revelou a Mustang Mach-E, seu primeiro SUV elétrico com o emblema Mustang. Na época, os puristas acusaram a empresa de desrespeitar o legado do ícone norte-americano. No fim, o modelo acabou vendendo mais do que a Mustang a combustão. Uma lembrança útil para analistas: a indignação online raramente mede, com precisão, o sucesso comercial.
Os clientes, por sua vez, abrem a carteira
E os números indicam que os mais otimistas podem estar certos. Benedetto Vigna, CEO da Ferrari, confirmou que a carteira de pedidos da Luce já está preenchida até o fim de 2027, apesar de as primeiras entregas estarem previstas apenas para outubro de 2026. Há tanto clientes tradicionais quanto novos compradores entrando na lista.
Mesmo cercada de críticas, a Luce traz especificações de peso: 1.050 cavalos distribuídos em quatro motores, 0 a 100 quilômetros por hora em 2,5 segundos, 530 quilômetros de autonomia e arquitetura de 880 volts com capacidade de receber até 350 kW em recarga rápida. O recado é que, no desempenho, a Ferrari não abriu mão.
Nossa análise
Por 550.000 euros na Europa e 640.000 dólares nos Estados Unidos, a Luce evidentemente não é feita para todos. Mas quem tem condição de comprar parece convencido. E, num segmento tão exclusivo, é esse público que define o jogo - não os comentários dos internautas.
Assim, a questão central não é se a Luce agrada nas redes sociais. A pergunta é se ela convence quando alguém assume o volante. A Ferrari diz que sim - e, até aqui, seus clientes também.
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