O que temos aqui, então?
Um Pagani Huayra ainda mais extremo, acompanhado de uma obsessão ainda maior por cada detalhe e com a promessa de entregar mais em todos os parâmetros de desempenho.
Sim, o Huayra BC ganhou mais potência e mais torque, mas - como quase sempre acontece com a Pagani - a verdadeira diferença está no refinamento minucioso. Tudo o que podia emagrecer, emagreceu; só que sem sacrificar desempenho - daquele tipo que faz a mão suar e a pupila dilatar.
E, caso você esteja curioso, o “BC” do nome é uma homenagem ao primeiro cliente, amigo e mentor de Horacio Pagani: Benny Caiola.
Pagani Huayra BC: o que mudou
Eu estava. Então, o que há de novo?
Quanto tempo você tem? Antes de entrar nos detalhes, vale uma ressalva: esta foi uma volta de desenvolvimento com um protótipo ainda cedo (Carro de Desenvolvimento nº 2), na Sicília. A Sicília não é grande o bastante para o BC - então precisamos de mais tempo ao volante para, de fato, entender a personalidade do carro.
A boa notícia é que, num carro tão visceral, até trechos curtos vêm carregados de informação em “alta definição”. O motor é o conhecido V12 6,0 litros biturbo de origem AMG, recalibrado para entregar 789bhp e 811 de torque. A força vai às rodas traseiras por semi-eixos tipo “tripé”, derivados de protótipos de Le Mans, passando por um câmbio automatizado manual Xtrac totalmente novo, de sete marchas, com nova atuação eletro-hidráulica e sincronizadores em fibra de carbono (a Pagani gosta de fibra de carbono).
Em resumo: o tempo de troca caiu pela metade - de 150 ms no Huayra “padrão” para 75 ms aqui. A Pagani diz que poderia ter usado uma transmissão de dupla embreagem, mas o peso combinado do câmbio Xtrac e do diferencial eletrónico é 40 por cento menor do que o de unidades atuais de dupla embreagem.
Peso, materiais e obsessão pelos detalhes
É só isso?
Nem perto - eu só comecei. Como eu disse, o BC vive de detalhe, e detalhe é um território em que a Pagani joga praticamente sozinha. O escape quádruplo em titânio é uma peça de contemplação: poderia estar pendurado numa parede de galeria e, ainda assim, faria sentido. Com apenas 2,9 kg, ele é impressionantes 7,1 kg mais leve do que as tubulações do carro “padrão”.
Os Brembo sob medida trazem a primeira aplicação de um novo desenho monobloco de seis pistões na frente (quatro pistões atrás) e ficam seis por cento mais leves do que o conjunto do modelo “padrão”. As rodas forjadas APP reduzem mais 9 kg (e vêm calçadas com Pirelli P Zero Corsa específicos, que usam 12 compostos diferentes de borracha ao longo da larga banda de rodagem de seção 355). As mangas de eixo e os braços de suspensão são feitos de Avional - um alumínio de padrão aeronáutico que pesa 25 por cento menos do que ligas de alumínio comuns.
O BC também estreia um novo tipo de fibra de carbono, ainda sem nome, que a Pagani afirma ser 50 por cento mais leve e 20 por cento mais resistente do que a fibra de carbono convencional. Essa soma de ajustes microscópicos resulta num BC gigantescos 132 kg mais leve do que o carro “padrão”.
Aerodinâmica e cabine
Não tem como não reparar em algumas mudanças aerodinâmicas...
É impossível ignorar. Na busca por mais pressão aerodinâmica, a Pagani trabalhou intensamente com a Dallara, o que levou a alterações em todos os painéis - com exceção do teto. Há entradas de ar e canais por toda parte.
O efeito final não é apenas mais aderência: o carro também passa a impressão de propósito. Talvez ele não tenha a mesma pureza do original, mas, se a ideia é beleza, basta abrir a porta. Ali aparece um interior absurdamente intrincado, onde couro vermelho profundo, camurça antracite e fibra de carbono fosca convivem com detalhes em preto brilhante. É de tirar o fôlego - e o varão de comando do câmbio, exposto, segue como uma das esculturas mecânicas mais bonitas de todos os tempos.
Ao volante: modos e comportamento
Então imagino que ele seja brutal de guiar, certo?
A grande surpresa é outra: o primeiro impacto do BC é o quanto ele é macio. Enquanto a maioria dos hipercarros trepida e sacode, o BC permanece imperturbável e filtra o pior que o asfalto devolve.
A operação também tem uma simplicidade bem-vinda. São apenas três modos de condução, selecionados por um botão no volante - Comfort, Sport e Race - e você pode trocar marchas pela alavanca ou pelas borboletas no volante. Só isso. Quer encarar? Dá para desligar todas as ajudas eletrónicas, mas um modo de segurança volta a ativá-las se a temperatura cair abaixo de 9 °C. Pense nisso como a Pagani a proteger o seu investimento.
Mesmo neste primeiro contato rápido, limitado por um conjunto de estradas mais acostumado a Fiat 500 e cabras do que a hipercarros de 789bhp, fica claro de imediato que a direção está mais afiada do que a do carro “padrão”, que os freios são poderosos e que o desempenho é brutal - entregando um tipo de aceleração que você sente no rosto. O som, porém, com os turbos “chilreando”, exige alguma adaptação.
É evidente que fomos mimados pelo V12 aspirado do Zonda, e este carro com aquele motor seria uma perspetiva de cair o queixo. Mas existe método na “loucura” da Pagani.
Emissões, mercado e produção limitada
Deixa eu adivinhar: turbos (ou assistência híbrida) já são obrigatórios para cumprir leis de emissões?
Infelizmente, sim. A boa notícia é que a AMG prometeu fornecer V12s em conformidade com emissões para a Pagani até 2023, então a festa certamente continua. O preço que Pagani precisou pagar para preparar o negócio para o futuro e abrir as portas para o que se tornou o seu maior mercado - os EUA (a casa de Caiola) - foi adotar turbocompressores.
Isso não prejudicou as vendas. Todos os 20 Huayra BC de €2,3 milhões já foram vendidos e, antes mesmo de alguém ver este carro, os pedidos já estão a entrar em massa para um BC Roadster. Sinceramente, se você é um dos poucos sortudos que já deixaram o dinheiro, nós tiramos o chapéu: o BC tem camadas que ainda não explorámos, e esse breve encontro só aguçou a vontade - deixando-nos com fome de mais.
Para algumas pessoas, carros são mais do que projetos de engenharia. Eles têm alma. Neste caso, um pouco da alma de um amigo e mentor. E, enquanto existirem pessoas como Horacio Pagani no mundo, a religião do hipercarro estará em boas mãos.
ESPECIFICAÇÕES
- Chassi: monocoque Pagani em carbo-titânio, estruturas dianteira e traseira em tubos de aço cromo-vanádio
- Motor: Mercedes-Benz AMG V12 60° 36 válvulas; cilindrada 5.980 cc
- Potência: 789bhp
- Tração: motor traseiro longitudinal central; tração traseira
- Câmbio: 7 marchas de nova geração com diferencial mecânico eletrónico
- Freios: quatro discos Brembo ventilados (380x34 mm com pinças de seis pistões na dianteira, 380x34 mm com pinças de quatro pistões na traseira)
- Rodas: liga de alumínio forjado APP monobloco; dianteira 20 pol, traseira 21 pol (dianteira 19 pol, traseira 20 pol, kit de pista)
- Pneus: Pirelli P Zero Corsa (ou Pirelli P Zero Trofeo R)
- Suspensão: independente nas quatro rodas, duplo triângulo; balancim superior com molas helicoidais e amortecedores Öhlins ajustáveis, barra estabilizadora, braços forjados, mangas de eixo forjadas
- Peso: 1.218 kg
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