A França quer encerrar a sua dependência do petróleo - e diz ter um roteiro bem definido. Entre as medidas centrais, está a popularização das bombas de calor, que passariam a ficar ao alcance do público por meio de um inédito leasing social.
A guerra no Oriente Médio acelerou tudo. Desde o início do conflito, o preço do petróleo disparou e a conta de energia da França ficou perigosamente mais pesada. O motivo é conhecido: o país ainda importa perto de 60% da energia que consome na forma de hidrocarbonetos. O governo pretende cortar essa dependência pela metade até 2035.
Para chegar lá, Emmanuel Macron aposta em um trunfo tipicamente francês: a eletricidade. Com uma matriz energética 95% descarbonizada, combinando nuclear e renováveis, além de tarifas entre as mais baixas da Europa, o país parte com vantagens. “Falar de eletrificação é falar de independência, descarbonização e emprego industrial”, insistiu o presidente.
Na terça-feira, 16 de maio, ele reuniu cerca de 200 executivos e representantes do setor no Palácio do Eliseu. A meta declarada era tornar “a passagem para o elétrico natural e desejável” para os franceses. Entre os temas, estavam carros elétricos e bombas de calor (PAC).
Bombas de calor (PAC), carro-chefe da transição
Nesse cenário, o governo quer instalar 1 milhão de bombas de calor por ano na França até 2030. Em 2025, foram instaladas apenas 180 000. Esses sistemas capturam calorias do ar externo ou do solo para aquecer uma residência. Diferentemente de uma caldeira tradicional, que queima gás ou óleo combustível para gerar calor, a PAC basicamente transfere esse calor. Por isso, entrega um resultado semelhante consumindo muito menos energia. E, como opera com eletricidade, se encaixa diretamente na estratégia de transição defendida pelo Executivo.
A mesma tecnologia também está nos carros elétricos
Muitos motoristas de veículos elétricos já usam esse princípio sem perceber: modelos mais recentes também trazem uma bomba de calor para aquecer a cabine sem drenar a bateria de forma excessiva. Em casa ou no carro, a tecnologia é a mesma.
Ofertas “chave na mão” e leasing social para as famílias
Para incentivar os lares a aderirem, o governo aposta em soluções completas: uma única mensalidade que inclui a compra do equipamento, a instalação, a manutenção e o fornecimento de eletricidade - tudo com custo inferior ao de uma conta mensal de gás. A EDF se comprometeu, nesse formato, a equipar 30 000 residências de baixa renda. Um leasing social, inspirado no mecanismo já existente para carros elétricos, também está previsto para as famílias mais pobres.
Octopus Energy entra em cena
Dentro desse movimento, a Octopus Energy - fornecedora britânica ainda pouco conhecida na França - prometeu investir até 150 milhões de euros para erguer uma fábrica de bombas de calor no país. A iniciativa deve gerar entre 500 e 1 000 empregos, com início de operação previsto para daqui a três anos. Até lá, a empresa mira a instalação de 10 000 PAC nos próximos 12 meses via leasing social.
No agregado, toda a cadeia produtiva se mobiliza. Os participantes do setor prometeram 41 000 novas vagas de trabalho até 2030. Já o governo afirma que pretende estabilizar os preços da eletricidade e ampliar a oferta de propostas comerciais atrativas, tanto para pessoas físicas quanto para empresas. Resta saber se os franceses vão aderir.
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