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Ora Funky Cat: primeiras impressões do hatch elétrico chinês no Reino Unido

Carro elétrico vermelho em movimento numa estrada cercada por árvores e grama verde.

Basta ler a manchete. “Funky Cat” é erro de digitação, né?

Não, não é erro. Você está mesmo diante de um hatch elétrico compacto chamado Funky Cat, prestes a desembarcar no Reino Unido vindo diretamente da China. Ele é obra da Ora, uma marca 100% elétrica que pertence à Great Wall Motor e que foi criada dentro de uma parceria com a BMW.

A história é a seguinte: GWM e BMW juntaram forças para erguer uma nova fábrica na China com capacidade para produzir 160.000 carros por ano, além de desenvolver uma plataforma inédita para veículos elétricos que também vai servir de base para futuros Minis. Ou seja, há boas chances de este ser um primeiro contato com o que pode virar o Mini Electric de próxima geração.

Entendi. Imagino que o Mini não vá ser tão… fofo assim?

Provavelmente não. Na China, este carro atende pelo nome Good Cat, mas - por motivos que só o marketing entende - a empresa decidiu que “Funky” combina mais com o público vibrante e voltado a estilo de vida que ela quer atingir por aí.

E, visualmente, a equipe de design levou esse espírito a sério. Os faróis e as linhas arredondadas dão ao Funky Cat uma aura simpática que lembra a do Fiat 500e. Ao mesmo tempo, ele faz o “truque” do Hyundai Ioniq 5: parece menor do que é. Na prática, ele está mais para um carro do tamanho de um supermini do que para um carrinho urbano minúsculo.

A Ora existe há pouco tempo: tem só três anos desde o lançamento da marca, em 2018. Ainda assim, já virou um sucesso no mercado doméstico, com 135.000 unidades vendidas em 2021 - volume suficiente para animar a empresa a tentar a sorte na Europa. No Reino Unido, antes mesmo de começar oficialmente, já havia 8.000 manifestações de interesse, e a meta é emplacar 5.000 carros por lá até o fim de 2023.

Isso é realista?

A meta é ousada, mas a marca diz estar encorajada pelo retorno inicial e, por isso, está apostando alto no lançamento. No Reino Unido, o Funky Cat só será vendido na configuração mais completa, a First Edition. Ela traz bateria de 48kWh com autonomia de 193 miles (cerca de 311 km) e motor elétrico de 169bhp, com tração dianteira, 184lb ft e aceleração de 0-62mph em 8.3 segundos (equivalente ao tradicional 0–100 km/h). Velocidade máxima? 99mph (aprox. 159 km/h).

Num carregador rápido, conte com algo em torno de 42 minutos para sair de 15-80 por cento - lembrando que a potência máxima de recarga é de 64kW. Já em um carregador residencial típico, a carga completa fica em cerca de cinco horas e meia.

Até o configurador foi pensado para ser simples: o preço de entrada é £31,995. Depois disso, você só escolhe entre quatro cores (Aurora Green, Mars Red, Starry Black e Nebula Green), decide se quer ou não pintura metálica (£595) e, por fim, se prefere o interior em dois tons e pintura metálica (£795). Sem complicação.

A Ora trabalha com a expectativa de financiamento de £399 por mês por quatro anos, com entrada de £3,600. E tem um ponto importante: ela afirma conseguir entregar o carro na concessionária mais próxima em apenas 15 dias. Um recado direto para os prazos absurdos que viraram regra no mercado.

Uau. E quem seriam os concorrentes?

Depende de quem responde. Para a gente, faz mais sentido olhar menos para SUVs e crossovers e mais para hatches elétricos: pense em Vauxhall Corsa Electric, Peugeot e-208 e Renault Zoe. Dá para argumentar que esse trio é menos “premium”, então vale colocar na conversa também o Honda e e - ironicamente - o Mini Electric.

Já a própria Ora aponta quatro rivais: Volkswagen ID.3, Cupra Born, Renault Megane E-Tech Electric e Hyundai Kona Electric. Todos têm dimensões parecidas (principalmente em comprimento), embora nenhum ofereça exatamente o mesmo pacote de itens de série.

Sim, este é um carro recheado de tecnologia - tinha que ser. O Funky Cat conquistou cinco estrelas no Euro NCAP graças ao seu conjunto de assistentes de segurança. A lista inclui controle de cruzeiro adaptativo com função para-e-siga, reconhecimento de placas, faróis de LED automáticos com assistente de farol alto, limpadores automáticos, câmera com visão 360 graus, câmera de ré e sensores traseiros de estacionamento, além de ar-condicionado automático e entrada sem chave. Enfim, o pacote completo.

Como virou padrão, existe um aplicativo para acompanhar a recarga e também para pré-aquecer ou resfriar a cabine.

Ele tem algum truque especial?

Tem alguns. O assistente de comando por voz é ativado com a frase “Hello Ora”. A partir daí, dá para abrir qualquer uma das quatro janelas sem encostar em nada (e, sim, passageiros arteiros também conseguem fazer isso). Outra função é o reconhecimento facial: ao identificar quem está ao volante, o carro aplica automaticamente as suas configurações preferidas. E, se você bocejar (é o que nos disseram), leva uma bronca por estar dirigindo com sono.

O Funky Cat também consegue avisar se você esquecer uma criança ou um cachorro dentro do carro por engano. Embora a gente suspeite que, por enquanto, o sistema ainda não seja refinado a ponto de distinguir um do outro…

Como é por dentro?

Faz jus ao nome. Como já era de se esperar, o interior segue a proposta e entrega uma cabine clara e colorida. E, graças à atuação de um centro de P&D na Alemanha exigindo padrão europeu, a sensação de montagem é de carro bem feito. No nosso teste, não apareceu nenhum rangido suspeito - e a qualidade do acabamento ajuda a sustentar o preço.

Além dos bancos em material sintético tipo couro e do volante com costura “de couro”, há um conjunto de duas telas de 10.25in integradas em um único módulo no topo do painel. Pelo sistema, você acessa de tudo, de rádio FM e DAB até temperatura dos pneus (sim, isso mesmo). Apple CarPlay e Android Auto ainda não estão disponíveis, mas uma equipe de engenheiros está trabalhando nisso e a promessa é que cheguem no primeiro trimestre de 2023. Já o carregamento de celular por indução está lá desde o começo.

Em espaço, ele vai bem na frente e não decepciona atrás, mas passageiros mais altos podem sentir falta de espaço para cabeça e pernas. O porta-malas também não é dos maiores: 228-litros (858 com os bancos traseiros rebatidos). E ainda há um problema prático: a borda de carga é alta, o que complica na hora de colocar aquelas sacolas mais pesadas.

E ao volante?

Sinceramente? Bem acertado. Na cidade e em estradas secundárias, o comportamento dinâmico passa confiança, com rolagem de carroceria bem controlada. Isso ajuda a escolher a trajetória nas curvas e posicionar o carro exatamente onde você quer. Ele não é esportivo - o acerto de chassi não incentiva esse tipo de tocada -, mas a resposta ao acelerador é forte. E o modo de condução com um pedal (se você ativar) aplica regeneração suficiente para tirar o estresse das manobras e do anda-e-para.

O conforto de rodagem segue o padrão de muitos elétricos: é firme, porém sem exageros, e lida razoavelmente bem com as irregularidades mais chatas. Não é um carro pensado com foco em rodovias, mas mantém boa compostura em velocidade de cruzeiro. A direção também não é leve demais a ponto de exigir correções o tempo todo. Aliás, dá para ajustar o peso da direção pela tela. Nós preferimos o modo mais pesado e deixamos assim.

O grande ponto negativo é o ruído de vento vindo dos retrovisores, que começa a incomodar a 70mph (aprox. 113 km/h). Ainda assim, isso entra mais na categoria “procurar defeito”.

Tem mais alguma coisa para implicar?

Alguns detalhes irritam, como era de esperar. As setas são um pesadelo: um toque leve aciona a indicação rápida, enquanto um toque mais firme serve para manter o pisca ligado quando você está parado numa esquina. O problema é que é fácil pressionar demais sem querer. Aí você se confunde, joga a haste para o outro lado e acaba sinalizando na direção oposta - e deixa todo mundo ao redor igualmente confuso.

O sistema multimídia, apesar de relativamente simples de navegar, parece depender demais de menus. Botões maiores ajudariam bastante quando se está em movimento. E os gráficos não têm a aparência mais harmoniosa do mundo. Mas é pior do que o sistema de um ID.3? Nem perto.

Mais alguma coisa? Há alguns plásticos com toque áspero, os porta-objetos nas portas são meio pequenos e as rodas de 18in não são unanimidade. Nada disso, porém, compromete: no geral, o conjunto é muito bom.

Eu gostei. Mas… ele é chinês.

Não tem como fugir do assunto: marcas chinesas ameaçam se instalar por aqui há anos. E dá para imaginar que essa hesitação histórica torne um emblema desconhecido mais difícil de vender. A Ora sabe que precisa convencer, então está oferecendo para os compradores do Funky Cat uma garantia de cinco anos sem limite de quilometragem e assistência 24h em toda a Europa, além de garantir bateria e trem de força por oito anos ou 100,000 miles (cerca de 160.934 km).

Ah, e ele fica no grupo de seguro 21E. Ao que parece, os avaliadores aprovaram a “reparabilidade” do Funky Cat.

Quanto às revisões, o intervalo é de dois anos ou 18,000 miles (aprox. 28.968 km): a Ora acredita que esse padrão mais espaçado do que o normal vai ajudar a trazer gente nova para a marca. As primeiras entregas estão programadas para acontecer antes do fim do ano. Quem topar a mudança tem boas chances de se surpreender positivamente. É um bom carro, este.

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