Uma calculadora não dá conta do recado. Para colocar em ordem um protótipo como o que Miguel Oliveira pilota na MotoGP - a principal classe do Mundial de Motovelocidade - o mais realista é abrir uma planilha no Excel e contar com um bom fôlego financeiro.
Vale lembrar que, no Mundial de Motovelocidade, todas as motos são protótipos criados especificamente para correr: da categoria de entrada (Moto3) até a classe máxima (MotoGP).
Como você verá mais adiante, isso muda tudo. Sobretudo quando acontece o que ninguém quer ver: uma queda como a que Miguel Oliveira sofreu no GP de Portugal neste fim de semana.
Milhões em duas rodas
Antes de entrar no custo para consertar um protótipo de MotoGP - como a Aprilia RS-GP 2022 com que Miguel Oliveira disputa a temporada do Mundial de Motovelocidade (dá até para relembrar a antiga KTM do piloto português) - é importante entender quanto custa, afinal, uma moto de MotoGP.
Para começar, não existe a possibilidade de comprar uma MotoGP atual - a não ser protótipos antigos, fora de competição, que às vezes acabam nas mãos de colecionadores. Com exceção das equipes de fábrica, as demais não compram: elas alugam as motos. É exatamente o caso da RNF Aprilia, equipe de Miguel Oliveira.
O aluguel de um protótipo como a Aprilia RS-GP de Miguel Oliveira tem um custo estimado entre dois milhões e três milhões de euros por época. Nesse pacote, entram uma segunda moto (exigida pelo regulamento) e também o suporte de engenheiros e mecânicos da fábrica, que acompanham a equipe nos fins de semana de corrida.
Não existem reparações baratas
Cada motor tem um custo estimado entre 200 mil e 250 mil euros. Esses números foram divulgados pela Honda HRC. Não dá para cravar valores exatos, porque tudo fica definido em contrato e é negociado item por item entre equipes e fabricantes.
"Só a parte elétrica tem um custo estimado de 100 000 euros, distribuídos por sensores, cablagem, processadores e painéis."
E os freios também não aliviam no orçamento. Para conter os gastos, a Federação Internacional de Motociclismo impôs um teto ao sistema de frenagem: 70 000 euros por época para um conjunto completo.
Sozinho, um par de discos de carbono custa 10 000 euros - e basta uma escapada mínima para a brita para que a troca seja obrigatória. Ninguém quer correr o risco de falha de frenagem em protótipos cuja velocidade máxima passa dos 360 km/h.
Já as carenagens valem milhares de euros, variando conforme a peça. As rodas, feitas em magnésio ou carbono, passam de 5000 euros.
Por isso, mesmo quedas relativamente leves raramente saem por menos de 15 000 euros. Aqui estamos falando de reparos em carenagens, pedaleiras, manetes e outros componentes menores.
"Caso a queda seja mais severa e outros componentes sejam afetados (radiador, tanque de combustível, mostradores, escape, etc) facilmente este valor ascende aos 100 000 euros."
No cenário mais desfavorável - em tombos muito fortes, quando motor, chassi ou balança entram na conta - o conserto pode chegar ao meio milhão de euros.
Ao observar as imagens do acidente que envolveu Miguel Oliveira (RNF Aprilia), Marc Marquez (Repsol Honda) e Jorge Martin (Pramac Racing) e, depois de colocar esses valores em perspectiva, fica mais fácil imaginar quantos milhares de euros foram literalmente “enterrados” na brita da curva 3 do Autódromo Internacional do Algarve:
Felizmente, na maioria das quedas os pilotos escapam sem ferimentos. Desta vez não foi assim. Tanto Miguel Oliveira quanto Marc Marquez vão ficar fora do próximo GP da Argentina por causa das lesões sofridas neste acidente.
Porque é que os valores são tão elevados?
A explicação está no tipo de máquina: são protótipos de corrida, e não motos derivadas de produção - como as que competem no Mundial de Superbikes (WSBK).
"As peças das MotoGP são produzidas em número muito limitado e sem olhar a custos."
Como se trata de componentes feitos em volumes mínimos e submetidos a controles de qualidade extremamente rigorosos, o preço inevitavelmente dispara. Não existe economia de escala.
Quando se colocam na conta as horas gastas em desenvolvimento e os recursos direcionados à fabricação, dá para entender que esses custos não podem ser atribuídos a uma única peça.
Dentro das marcas, há departamentos inteiros dedicados apenas aos programas de competição. São centenas de engenheiros trabalhando com um único objetivo: construir as motos mais rápidas do mundo. Custe o que custar.
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